Onde não há utopia, não há futuro
ENTREVISTA
Para
Dom
Pedro Casaldáliga, somente a
construção de um mundo
só (e não dois ou três ou quatro)
poderá salvar a humanidade. Segundo
ele, é utopia, mas uma
utopia “necessária
como o pão de cada dia”
Nilton Viana,
da Redação
DOM PEDRO
Casaldáliga tem sido uma voz
firme na defesa de que, para o
socialismo novo, a utopia continua.
E esclarece: a utopia de que
falamos, a compartimos com milhões
de pessoas que nos precederam, dando
inclusive o seu sangue, e com
milhões que hoje vivem e lutam e
marcham e cantam. Para ele, esta
utopia está em construção, somos
operários da utopia.
Mesmo convivendo com o “irmão
Parkinson”, como ele mesmo define a
doença de Parkinson – uma
enfermidade neurológica que afeta os
movimentos da pessoa, causa
tremores, lentidão de movimentos,
rigidez muscular, desequilíbrio além
de alterações na fala e na escrita –
carinhosamente respondeu às nossas
perguntas. E, nesta entrevista ao
Brasil de Fato,
Casaldáliga fala do “absurdo
criminal de constituir a sociedade
em duas sociedades de fato: a
oligarquia privilegiada, intocável,
e todo o imenso resto de humanidade
jogada à fome, ao sem-sentido, à
violência enlouquecida”. Defende
que, hoje, só a participação ativa,
pioneira, de movimentos sociais pode
retificar o rumo de uma política de
privilégio para uns poucos e de
exclusão para a desesperada maioria.
E adverte: o latifúndio continua a
ser um pecado estrutural no Brasil
e
Brasil de Fato – Como o senhor tem
visto a devastadora crise que já
afeta todos os países e
principalmente a classe
trabalhadora?
Dom Pedro Casaldáliga –
Com muita indignação e revolta; com
uma sensação de impotência e ao
mesmo tempo a vontade radical de
denunciar e combater os grandes
causadores dessa crise. Esquecemos
fácil demais que a crise
fundamentalmente é provocada pelo
capitalismo neoliberal. Irrita ver
governantes e toda a oligarquia
justificando que as economias
nacionais devam servir ao capital
financeiro. Os pobres devem salvar
economicamente os ricos. Os bancos
substituem a mesa da família, as
carteiras da escola, os equipamentos
dos hospitais...
Eu estava comentando ontem [19 de
dezembro] com uns companheiros de
missão que a avalanche de demissões
acabará justificando uma avalanche
de assaltos, por desespero. Está
crescendo cada dia mais o absurdo
criminal de constituir a sociedade
em duas sociedades de fato: a
oligarquia privilegiada, intocável,
e todo o imenso resto de humanidade
jogada à fome, ao sem-sentido, à
violência enlouquecida. Fecham-se as
empresas, quando não conseguem um
lucro voraz, e se fecha o futuro de
um trabalho digno, de uma sociedade
verdadeiramente humana.
Como o senhor analisa o papel dos
movimentos sociais frente à atual
conjuntura?
Já faz um bom tempo que, sobretudo
no Terceiro Mundo (concretamente no
nosso Brasil, na Nossa América), se
vem proclamando por cientistas
sociais e dirigentes populares que
hoje só a participação ativa,
pioneira, de movimentos sociais pode
retificar o rumo de uma política de
privilégio para uns poucos e de
exclusão para a desesperada maioria.
Os partidos e os sindicatos têm
ainda sua vez; devem conservá-la ou
reivindicá-la. Sindicato e partido
são mediações políticas
indispensáveis; mas o movimento
social organizado, presente no
dia-a-dia do povo, é sempre mais
urgente, como uma espécie de
“vanguarda coletiva”.
Diante deste cenário, na sua
avaliação, quais são as alternativas
para os pobres do mundo hoje?
A alternativa é acreditar mesmo que
“Outro Mundo é Possível” e se
entregar individualmente e em
comunidade ou grupo solidário e ir
fazendo real esse “mundo possível”.
O capitalismo neoliberal é raiz
dessa crise e somente há um caminho
para a justiça e a paz reinarem no
mundo: socializar as estruturas
contestando de fato a desigualdade
socioeconômica, a absolutização da
propriedade e a própria existência
de um Primeiro Mundo e um Terceiro
Mundo, para ir construindo um só
Mundo, igualitário e plural. Com
freqüência respondo a jornalistas e
amizades do Primeiro Mundo que
somente a construção de um mundo só
(e não dois ou três ou quatro)
poderá salvar a humanidade. É
utopia, uma utopia “necessária como
o pão de cada dia”. Onde não há
utopia não há futuro.
No próximo mês de janeiro o
Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra (MST) completa 25 anos. O
senhor, como incansável defensor dos
camponeses pobres e inspirador do
movimento, vê hoje a luta pela terra
de que maneira?
O MST completa, então, seus 25 anos
de luta, de enxada, de poesia, de
profecia ao pé da estrada e da rua.
Segundo muitos analistas o MST está
sendo o movimento popular melhor
organizado e mais eficaz “de fato”.
Sabe muito bem o MST que “a terra é
mais que terra”, e por isso está se
volcando, pertinaz, esperançado, na
conquista comunitária da terra, na
educação de qualidade, na saúde para
todos, numa atitude permanente de
solidariedade, em colaboração
gratuita e fraterna com todos os
outros movimentos populares.
Que mensagem o senhor diria hoje
para os milhares de trabalhadores e
militantes do MST espalhados por
todo o país?
Os 25 anos do MST são uma data a
celebrar, dando graças ao povo da
terra e ao Deus da terra e da vida,
reafirmando os princípios que
norteiam o objetivo e a prática do
MST. Recordando a palavra de Jesus
de Nazaré: “não podeis servir a Deus
e ao dinheiro”; não podeis servir ao
latifúndio e à reforma agrária. O
latifúndio continua a ser um pecado
estrutural no Brasil e
O senhor tem dito que “Para um
socialismo novo, a utopia continua”.
Quais devem ser os caminhos (ou o
caminho) para seguirmos na
construção desse socialismo novo e
garantir sempre que a utopia
continue?
Que o MST continue a ser um
abanderado desse “socialismo novo” e
de uma verdadeira reforma agrária e
agrícola, inserido na Via Campesina,
na procura e no feitio de uma nova
América. Que mantenha viva e
produtiva de esperança a memória dos
nossos mártires, sangue fecundo, os
melhores companheiros e companheiras
da caminhada. Que siga entrando,
plantando, cantando, contestando,
com aquela esperança que não falha
porque tem inclusive a garantia do
Deus da Terra, da Vida, do Amor.