A última entrevista que  "Tia Irene" deu a revista Ave Maria, no inicio do ano. Ela fala de sua vida e seu trabalho na Prelazia.

 

célebre Maestro Furio Franceschini, que foi músico aqui em São Paulo, foi seu pai?
Sim, mas inicialmente ele morou no Rio de Janeiro. Lá chegou jovem, em 1904, devia ter 24 anos, porque ele era de 1880. Tinha acabado o curso de regente de orquestra na Itália e inscreveu-se numa companhia lírica como regente de coros. Aquela companhia veio apresentar-se no Rio de Janeiro, RJ, e meu pai veio junto. Tendo-se desentendido com o chefe, rompeu o contrato e ficou no Rio, sem dinheiro, sem saber a língua, e sem conhecer ninguém. Depois de algum tempo, casou-se com a irmã de um padre que o acolheu. Mas, infelizmente, depois de um ano, a mulher dele faleceu no primeiro parto e a criança também. Desgostoso, meu pai mudou-se para São Paulo, SP e aqui casou-se com mamãe, Maria Angelina Vicente de Azevedo, em 1914.

Quantos irmãos a senhora tem?
Nós fomos sete. Um morreu pequeno. Atualmente, somos quatro, porque os dois mais velhos faleceram.

Por que a senhora quis ser freira?
Eu e minhas irmãs passamos pelo Colégio São José da rua da Glória, e eu tive vontade de ser religiosa.

Quando foi para São Félix, foi a convite de alguém?
Eu não fui convidada. Eu sempre quis ser missionária e quando ouvi falar do Araguaia pedi a minhas superioras para ir para lá. Éramos seis: Lúcia da Imaculada, Maria de Lourdes Faleiros, Maria Noêmia, Bernarda, Armandina e eu.

E já havia lugar para acomodá-las?
Não, mas os missionários claretianos que lá estavam nos deram acolhida: José Maria Garcia Gil que ainda vive, Leopoldo Belmonte e o Pedro Sola Barbarin. Não era intenção dos claretianos trabalhar em colégio, mas era a necessidade do local. Naquela época, todos os rapazes e moças que tinham um pouco mais de idade e recursos saíam para estudar fora. Então, era necessário fazer alguma coisa pelos que não tinham meios para ir para outra cidade. Assim ajudamos no colégio, fazendo de tudo um pouco.

Quando d. Casaldáliga chegou lá, quais foram as primeiras iniciativas dele?
D. Casaldáliga escreveu em sua autobiografia que lá chegando se viu somente com o Irmão Manuel que depois se ordenou padre. Aos poucos, foi visitando os lugares mais próximos pelo rio Araguaia, de barco, a cavalo, porque naquela época não havia estradas nem ônibus. Assim foi conhecendo as necessidades do povo e planejando seu trabalho.

Onde foi a sagração episcopal dele?
Foi lá na prelazia. Mas tudo com muita pobreza. Como báculo, um remo que lhe foi dado de presente por um índio Tapirapé e, em vez de mitra, um chapéu de palha. Tinha decidido se inculturar, ou seja, ficar igual a eles, tornar-se um deles. Havia milhares de peões que chegavam apenas com uma malinha, dentro uma rede e um par de botinas. Vinham enganados para trabalhar lá, convencidos de que havia hotel e não havia nada disso. Eram tratados como escravos. Eu mesma vi morrer vários deles, acometidos de malária. Morriam às dezenas, sem nome sem família e sem se poder dar notícias para ninguém. D. Pedro ficava revoltado com aquela situação desumana.

E a senhora ficou lá quanto tempo?
Fiquei sempre lá. Em 1972, começou a repressão militar. Aí, o colégio foi tirado de nossas mãos, porque diziam que nossos alunos eram muito politizados.

Na época da repressão, vocês tiveram que sair de lá?
Algumas pessoas não puderam ficar. Era terrível a repressão, os soldados entravam nas casas e mexiam nas coisas. Uma vez, entraram no colégio e eu estava só com uma funcionária. Entraram na secretaria quatro soldados portando metralhadoras. O capitão perguntava: "Onde estão os funcionários?" - "Foram almoçar", respondi. Chamei a funcionária para ficar junto comigo, pois estava supernervosa, mas tive coragem de dizer: "Abaixem esses instrumentos". Eles ficaram imóveis, o capitão fez sinal para eles. Tremia de medo e perguntei a eles: "Os senhores aceitam café?", porque eu precisava tomar um café. E tomei. - "Vamos revistar tudo". Subiram na caixa d'água, procuraram no poço...

O que os soldados procuravam?
Procuravam por armas, achavam que nós tínhamos ligações com a guerrilha do Araguaia. Só que o Araguaia estava muito longe dali, no Pará. Desconfiados, queriam ver tudo. Mandaram chamar todos para fotografar e tomar as impressões digitais. As moças, simples como eram, foram arrumar o cabelo porque afinal iam tirar retrato...

Foram esses soldados que mataram o padre João Bosco?
Não. Foi em Ribeirão Cascalheira, mais ao sul, com a polícia local. D. Casaldáliga e o pe. João Bosco tinham ido a uma reunião do Conselho Indigenista Missionário, CIMI, no Tapirapé. Na volta souberam que duas mulheres estavam sendo torturadas na cadeia e que seus gritos se ouviam em todo o povoado. Então d. Casaldáliga disse: "Vou lá". Pe. João Bosco respondeu: "Eu também".

Quem se dirigiu aos soldados, foi pe. João Bosco, não foi?
Foi. Falou para eles: "Se não soltarem essas mulheres, se continuarem fazendo isso, eu vou a Cuiabá e vou denunciar vocês". E, aí, ouviu-se um tiro. Logo que viram que o tinham matado, fugiram. Uma semana depois, o povo, revoltado, derrubou a delegacia.

Eles não conheciam d. Casaldáliga?
Não. O soldado que atirou, não conhecia nem d. Casaldáliga nem o pe. João Bosco. Como este tinha um porte mais forte e se dirigira a eles, achou que era o bispo. No dia seguinte, eu tinha ido a uma loja, em São Félix, quando alguém disse: "a senhora sabe que mataram o bispo?". Eu disse: - "Não, não ouvi falar nada". Voltei para casa e comuniquei aos padres que logo pegaram o jipe rumo a Cascalheira.

D. Casaldáliga, depois disso, foi mais perseguido de perto, ou não?
Foi sempre perseguido. Ele teve cinco processos de expulsão do Brasil.

Como resumiria o trabalho de d. Pedro?
Serviço pelo Reino.

Uma mensagem para nossos leitores.
A missão, que temos lá, todos nós temos também. Uma coisa linda que eu agradeço muito a Deus é o de ter sido chamada para essa missão, uma grande graça que Deus me concedeu, de eu viver esses 35 anos lá. Uma grande graça.