poesias de Paulo Gabriel

 

APRESENTAÇÃO

"Paulo Gabriel é poeta, de fôlego maior, no meu entender amigo, e por isso mesmo, perdoavelmente suspeito. Literariamente, Paulo Gabriel é antes de mais nada, um lírico, sensivelmente humano, lavrador de intimidades. Literariamente é uma despojada retórica, um olhar descritivo, quase naturista por sua vez. Cinematograficamente seria neorrealista. Paulo Gabriel é religioso. Seus poemas são também religiosos. Dessa religião de Jesus Cristo, o Filho de Deus, o Filho do Homem, que se faz vida cotidiana, opção pelo Reino, parcialidade evangélica pelos pobres, serviço e riscos históricos."...

D. Pedro Casaldáliga

Cantiga de amor

 

Se eu beijar você menina

meus lábios vão vibrar

eu prometi amar você

sem a tocar.

 

Se eu tocar em você menina

minhas mãos vão se queimar

eu preciso amar você

apenas com o olhar

 

Se eu olhar você menina

meus olhos vão vidrar

eu quero amar você

somente no pensar.

 

Se eu pensar em você menina

minha cabeça vai endoidar

só posso amar você

quando sonhar.

 

Se eu sonhar com você menina

o que vai ser quando eu acordar?

Eu amarei você deveras

o dia em que a olvidar.

 

Cotidiano

 

Dói a garganta

pelo grito que não gritei.

 

Pararam os pés

cansados de abrir caminhos.

 

Tremem as mãos

que outrora teciam a aurora.

 

Meu corpo ressente-se

da luta mais inglória

 

cotidiano.

 

 

Meu ofício

 

Recolher os mortos à beira dos caminhos

clandestinamente

enterrar os mortos depressa

para recolher mais mortos.

 

Limpar o sangue derramado

recompor o corpo roto

e segurara a última lágrima de amor antes do fim.

 

Meu ofício neste tempo

é criar poemas no lodaçal do espanto

e semear cadáveres na terra.

E se grito Ele estremece

 

As tardes em agosto morrem lentas

porque em agosto Deus descansa.

 

E se já não emana água da fonte

urge construir a casa da utopia

como quem costura o sonho.

 

Porque também Deus tem fraquezas

e se eu grito Ele estremece.

 

Em agosto

minha alma peregrina esbarra no infinito.

Eu venho de uma terra

onde o sol abrasa a carne

e o latifúndio mata a vida.

 

Terra de homens valentes

retirantes

sentinelas do dia e da noite

acostumados a enfrentar a selva

o medo

a cobra e o opressor.

 

Capazes de definir a história num lamento

num silêncio prolongado.

 

Sabem que a vida é um fato relativo

definitiva é só a terra.

 

Homens com facão na mão para desmatar

para matar basta olhar.

 

 

 

 

 

Homens que amam se o amor

não custa caro demais

gente que usa revólver

para garantir a paz.

 

 

 

 

Eu venho de uma terra grávida de esquecimento

terra que pode explodir no momento incerto.

 

 

 

Povo sem terra fixa

sem  mulher fixa para amar

que vai de um lugar a outro

apenas por caminhar

 

 

Povo de vida curta

com muitos filhos atrás

homens que morrem a pé

na estrada que leva ao mar.

 

Poesias do livro "Utopia" - ed. Santa Clara -

fotos de Agenor Chiarinelli.

 

Cântico da criatura

 

Belo é o sol

e é bela a terra

pachamama

feminina

nos sulcos fecundada.

 

Belas são as florestas tropicais

vestidas de jacarandás e de palmeiras

exuberantes na harmonia do ipê amarelo.

 

Belos sãos os olhos das estrelas

                                              e as pálpebras do fogo.

 

Como é belo o cantar das cotovias

e o uivar dos lobos e as pegadas da onça no sertão.

 

Límpido como uma virgem

o voar das garças no Araguaia.

 

É belo o universo nas lavas dos vulcões

e a matéria e a energia na explosão primeira

                                                             até parir a luz.

 

Bela é a água

delicada e simples

porque dela jorra a pureza

e é nela que habitam os pacus

e os monstros que na noite viram pesadelo. I

 

Vale a pena ter nascido

só para sentir o vento na janela

a chuva no telhado tenra e constante

a lua mais que clara.

 

E se é tudo divino

nada revela Deus melhor que tu

                   mulher

                   anima e mito

                   única

a face iluminada do mistério no meu caminhar trôpego.

 

Bela é a morte

porque abrirá definitivamente as portas ao abraço

na comunhão do amor interminável.

  VISITA DE COVA
 

No cemitério de Querêcia eu chorei!

 

Nasceu vivo Jefferson

e como nascer já é uma perda

em quinze minutos de existência

Jefferson viveu duas mortes.

 

Foi o tempo que ele teve

para compreender o incompreensível!

 

Porque a mãe era solteira e nada tinha

nem batizado foi, disse a avó, dona Divina.

 

Às dez da manhã o cemitério ardia e era agosto.

 

Três mulheres e um menino

fincaram uma cruz de pau na terra e suspiraram.!

 

Eu rezei que para isso fui chamado

 

e como soprava um vento leve entre as tumbas

as velas se apagaram.

 

Feito o rito .

Lucineide voltou mais aliviada.

 

Apenas uma dor a incomodava:

ouvira dizer no programa do Ratinho

que o mundo acabaria na próxima semana!

História de amor

 

Porque Petrolina amou loucamente

louca ficou

quando o homem que amava morreu.

 

Petrolina intuía

- nunca leu jornais

menos ainda ouvira falar de Shakespeare

Romeu e Julieta

essas coisas românticas -

que a vida termina quando acaba o amor.

 

E seguindo a lógica certa da paixão

começou a vagar pelas ruas

                                         alheia

                                         distante de tudo

pois o mundo passou a ser ficção

                                         aparência

                                         mentira.

 

Tinha nos olhos a luz do Araguaia

nos lábios o gosto do mel fabricado na mata

e o corpo anunciava a alegria das chuvas primeira

 

Levava no rosto a terra sofrida

                                    pisada

                                    roubada

                                    infinita

                          sertão!

Espontânea

oferecia ao povo

margaridas

adálias

rosas

flores graciosas

e por isso a cidade passou a chamá-la

pelo nome mais certo:

 

                        primavera!

 

Petrolina se foi

enganou a morte espalhando beleza.

 

Agora

as flores crescem viçosas

no quintal sem muros

esperando ansiosas

que alguém na cidade

de amor fique louco.

 

NO FIM DO CAMINHO

 

Em minha alma rasgada antes do parto

um homem e uma mulher se beijam.

 

Reconciliado

eu conspiro!

 

 

TELÚRICO

 

Eu peco de luxúrias.

 

Confesso

o sangue-boi bicando na peruana me delira

e se vejo uma garça irresistível

a beber com seus olhos o Araguaia e seu infinito

eu estremeço.

 

Faminto de beleza eu ando

como andam famintas de Deus as virgens no outono.

 

Erótica

minha alma suga o mel nos ipês do Bananal

quando em agosto eles se vestem para o amor lá no horizonte.

 

Compulsivo

eu quero tocar o corpo da terra e seu mistério.

 

Meu desejo escorre nu

sem leito e sem cadarços

lâmina viva na palavra ardente

feito cabelo de cigana ao vento.

 

Não

não quero o fim da luz nas tardes tropicais

nem a morte e seu mormaço eu quero.

 

Amo a vida em estado bruto:

o verde sem farda do buriti no brejo

o beijo obsceno dos cachorros guiados apenas pelo instinto

o vestido esvoaçante do beija-flor sem corpo

o café e seu aroma quando amanhece o dia

a brasa e seu calor.

 

Eu peco de luxúrias

confesso

e se navego para o mais fundo do meu ser

lá onde o inconsciente explode sem disfarces

ouço Deus e seu grito:

 

peca mais e peca sempre!

 

 

 

QUANDO MEUS OLHOS SE FECHAREM

 

Quando meus olhos definitivamente se fecharem

estarei pensando em ti.

 

Ao partir levarei na retina teus lábios e teus sonhos

iluminado por teu corpo morrerei em paz como os santos.

 

Bebi de ti a essência da vida

tu

 

manancial da pureza e da vertigem

farol e andaime na noite da tristeza

o túnel que me levou ao mar.

 

Ao partir concentrarei nos meus olhos

as tardes serenas no Araguaia

teus pés junto aos meus nas noites misteriosas do sertão

tua voz nos meus ouvidos abrindo o dia à luz.

 

Apalpei contigo

a irresistível alegria do povo em caminhada

rezei como copulam os amantes

fiz da vida canto

                                                  consolo e poesia

e se sofri na carne a dor

foi porque amei até o êxtase.

 

Quando meus olhos definitivamente se fecharem

será teu nome minha última palavra

porque sei que ao abri-los novamente

vou encontrar-te na eternidade do amor.

 

TEXTOS DE PAULO GABRIEL :

                                                            1980 - Poemas de Periferia

                                                            1983 - A Fragilidade da Terra

                                                            1986 - Palavra de Sábado

                                                            1991 - Clamor Continental

                                                            1996 - Memorial do Corpo

                                                            2000 - Utopia

                                                            2001 - Olhos velados de bruma

                                                            2004 - Nesta noite eu conspiro

 

      Paulo Gabriel nasceu na Espanha, mas vive no Brasil desde 1973. Aqui se tornou cantor popular de histórias simples, construtor de fantasias, sonhador de um mundo novo, pedreiro de utopias. No Rio de Janeiro aprendeu que a vida é alegria, natureza, festa. O que importa é viver o presente com intensidade. Tudo é passagem! Foi em Minas onde descobriu o silêncio das coisas, o olhar emocionado e os segredos do coração humano. Há em Minas vestígios de eternidade. No Araguaia, trabalhando com Dom Pedro Casaldáliga, viu que a história é luta, sufoco, solidariedade e teimosia. (Dorinha Soares).

 

voltar