SANTUÁRIO DOS MÁRTIRES DA CAMINHADA

 

   

        Ribeirão Cascalheira - MT

        Era a tarde do dia 11 de outubro de 1976. Duas mulheres sertanejas, Margarida e Santana, estavam sendo torturadas na cadeia-delegacia de Ribeirão Bonito, Mato Grosso, lugar e hora de latifúndio prepotente, de peonagem semi-escrava e de brutalidade policial. 

        A comunidade celebrava a novena da padroeira, Nossa Senhora Aparecida. E nesse dia haviam chegado ao povoado o Bispo Pedro e o Padre João Bosco Penido Burnier, mineiro de Juiz de Fora, jesuíta, missionário entre os índios Bakairi. Os dois foram interceder pelas mulheres torturadas. Quatro policiais os esperavam no terreiro da delegacia e apenas foi possível um diálogo de minutos. Um soldado desfechou no rosto do Padre João Bosco um soco, uma coronhada e o tiro fatal. 

        Em sua agonia, Padre João Bosco ofereceu a vida pelo CIMI e pelo Brasil, invocou ardentemente o nome de Jesus e recebeu a unção. Foi morrer, gloriosamente mártir, no dia seguinte, festa da Mãe Aparecida, em Goiânia, coroando assim uma vida santa. Suas últimas palavras foram as do próprio Mestre: "Acabamos a nossa tarefa!"

 

nosso tempo 

nossa AMÉRICA


        Há séculos que Nossa América vem sendo regada pelo sangue dos muitos mártires, que sobretudo os impérios, as oligarquias e as ditaduras vêm fazendo neste " Continente da morte e da esperança". 

        Povos indígenas inteiros misturaram seu sangue com o sangue de alguns missionários heróicos, com o sangue do Povo Negro trazido da Mãe África para a escravidão e com o sangue dos libertadores e libertadoras de todos os tempos desta Pátria Grande. 

        Nas últimas décadas, particularmente, o Martírio tem marcado nossos Povos e nossas Igrejas, por causa das ditaduras militares e das elites econômicas e políticas, nas mãos de exércitos fratricidas e de esquadrões das morte, sob a tortura, nos desaparecimentos, na sombra das fossas comuns, nas ruas e no campo, nas montanhas e no mar, dentro da maior impunidade, mas também com a mais gloriosa verdade do testemunho. 

        Mulheres e homens, jovens e crianças; indígenas, camponeses e operários; mães de família e religiosas; advogados, estudantes e jornalistas; militantes da terra, do trabalho, das Cidadania, dos Direitos Humanos: vidas dadas pela vida, pela justiça, pela libertação, pela verdadeira paz. 

        Mártires do Reino, essa " nuvem de testemunhas" nos obriga e nos convoca para a vivência e a promoção das causas humanas maiores, que são também causas do Reino de Deus. 

o maior 

AMOR

        A Igreja do Sangue e do Espírito de Jesus de Nazaré. E ser Igreja é ser testemunha dEle. " Vocês serão minhas testemunhas até os extremos da Terra" (At 1,8), disse o Senhor Ressuscitado à primeira comunidade cristã. E desde sempre, na Igreja, ser "testemunha" e ser "mártir" são sinônimos. O próprio Jesus é chamado, no Apocalipse (1,5), de " Testemunha Fiel". 

        Mártir é a testemunha radicalmente fiel até as últimas conseqüências. 

        Não por vitimismo, mas por amor. "Amem-se uns aos outros, como Eu amei vocês. Não existe maior amor do que dar a vida pêlos amigos" (Jo 15, 12-13). 

        No seguimento de Jesus e enfrentando com Ele os poderes do mal e da morte. Na procura do Reino. A serviço da Vida. Na certeza da Vitória. "Se o mundo odeia vocês, lembre-se que primeiro me odiou a Mim" (Jo 15,18). "Mas coragem, Eu venci o mundo (Jo 16,33). 

        Esse testemunho, que os mártires dão, nós todos e todas devemos dar, no dia-a-dia, sem esperar o possível testemunho último da morte. Devemos dar esse testemunho sendo coerentes com a nossa Fé, na vida e que são causas da grande Causa do Reino. 

        Não só à primeira comunidade cristã nem só aos mártires Jesus deu esse Mandamento do Maior Amor... 

NOSSO COMPROMISSO

        

        Celebrando a Páscoa de Jesus e sempre na Vigília e na Caminhada do Reino, fazemos, na Fé, a memória de todos os martírios, assumimos a História, com Esperança, e abraçamos, no Amor, estes compromissos: 

  • Na família, no trabalho, na luta e na festa, 
    seremos sempre testemunhas alegres da Páscoa. 
  • Meditaremos e anunciaremos a Palavra de Deus 
    e celebraremos a Fé e a Vida em comunidade. 
  • Participaremos ativamente 
    do Sindicato, da Política, do Movimento Popular. 
  • Lutaremos pela Terra e pela Moradia, 
    pela saúde e pela Educação, 
    pelo Trabalho e pelo Lazer. 
  • E contestaremos o neoliberalismo e o latifúndio, 
    a corrupção e o servilismo, 
    o consumismo e a manipulação. 
  • Jovens e crianças, mulheres e homens, 
    no campo e na cidade, 
    diferentemente nas culturas e iguais nos direitos, 
    seremos um Povo só, 
    nos muitos Povos desta Pátria Grande, 
    com todos os povos solidários deste mundo.

Fortalecidos pelo testemunho de nossos Mártires 
e acompanhados pela ternura da Mãe Maria, 
em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. 
Amém, Axé, Awere, Aleluia!

 

No 7º dia do Martírio do Pe. João Bosco
o povo plantou a Cruz da Libertação 
e derrubou a cadeia-delegacia, 
símbolo de cativeiro.

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